quarta-feira, 5 de maio de 2010

Nós, Eles...

Ontem estreou "A Liga", novo programa da Band, por sinal, EXCELENTE. O programa consiste em quatro repórteres analisando um tema, mergulhando na realidade dele e relatando suas experiências, cada um com um olhar, uma perspectiva diferente.
A edição desta terça, 04 de maio, teve como tema os moradores de rua, suas histórias, como foram parar ali, as dificuldades que enfrentam, os desejos que têm e todo o contexto que preenche essa situação.
Assistindo à Liga, eu parei para pensar no Apartheid que vivemos. Na distância que separa cada um de nós, mesmo estando tão próximos. É o Apartheid Social, que faz uma turma de rapazes de classe média alta atear fogo em um índio que dorme na rua. "Pensamos que era um mendigo..."
Por que nós ignoramos tanto essas pessoas? Ah, não sejamos hipócritas, quase todo mundo ignora descaradamente os mendigos, as pessoas que nos pedem esmola nas ruas. Finge que não vê, não olha pro lado, não responde, nem se dá o trabalho de negar; apenas finge que não está ali. Sentimos medo. Medo de assalto, medo da violência que nos deixa tensos ao andar na rua. Mas vamos nos despir de todo o falso moralismo que, possivelmente, temos. É só medo? É mesmo, apenas medo? Ninguém aqui nunca sentiu repulsa e até mesmo um certo nojo?
Dá vergonha dizer a resposta, não dá? Dá vergonha até pensar, de chegar a essa conclusão comigo mesma. De dizer que sentimos nojo de outros seres humanos, porque eles moram na rua. A verdade, meus amigos, é que nós ignoramos esses pobres marginalizados porque quem se depara com essa realidade e se questiona sobre ela é invadido por um turbilhão de sentimentos, pensamentos, dúvidas...
É medo, é culpa, é nojo, é revolta, é remorso, é pena, é alívio, é identificação, é tudo junto. O ser humano pode ser muito cruel quando se trata de se poupar do que é ruim. É para evitar essa avalanche de emoções e um conflito interno do tamanho do mundo, que preferimos ir ao shopping center a ir ao centro do Recife, fazer compras. Porque lá no shopping tudo é maquiado, tudo é bonito, não tem menino pedindo esmola, com catarro escorrendo do nariz. Não tem aquele velho com a perna inchada de filariose e cheio de feridas. Não tem a velhinha desdentada e fedorenta. E não tem que pensar nisso tudo, não precisa se culpar, não tem pena nem remorso pra sentir. Remorso por ter roupas caras, remorso por comer mais do que precisa, por saber que é privilegiado. Lá não precisa explicar ao seu filho pequeno por que ele é diferente daquele menino catarrento do mesmo tamanho dele.
- "Mas por que ele é diferente, Mainha?"
- "Porque é, meu filho! E pare de fazer perguntas!"
- "Eu não acho ele diferente..."

É, gente, "eu fico com a pureza da resposta das crianças..."

É bom se confrontar um pouco com essa realidade, com nossa sociedade e, principalmente, com nossos princípios. Eles são pessoas como nós. Por que dizemos "ELES" e "NÓS"? Deveria ser apenas "NÓS", de seres humanos. Esses que chamamos de "eles", são vítimas de um contexto histórico com raízes profundas. E "nós", temos participação nisso também. Não sabemos a solução, mas pra começar, vamos pelo menos tentar pensar, tentar olhar, aliás, tentar enxergar. Tentar ser humano.

Quem quiser saber mais sobre "A Liga" ou assistir aos vídeos pela internet, clique aqui.

A Liga, terça-feira, às 22:00.
Apresentadores:
  • Rafinha Bastos
  • Débora Vilalba
  • Thaíde
  • Rosanne Mulholland

Beijos a todos!

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